(Texto escrito em 2012)
O jornalista Bob Fernandes, comentarista do Jornal da Gazeta, da TV Gazeta, de São
Paulo, fez, até o momento, o comentário mais pertinente sobre o caso dos índios
Kaiowá/Guarani. Diz ele: “Desde 1999, quando estive em Dourados com o fotógrafo
Luciano Andrade, outros 555 jovens Kaiowá/Guarani se suicidaram no Mato Grosso do
Sul. Sob aterrador e quase absoluto silêncio. Silêncio dos governos e da Mídia. Um
silêncio cúmplice dessa tragédia”.
De fato, o silêncio por parte da imprensa, dos nossos governantes e da opinião pública
contribui para o total desconhecimento dos fatos. Mas não é só isso. Por meio da força
das redes sociais e de alguns bravos jornalistas, o drama vivido pelos índios entrou
em pauta. Mas até agora, quase tudo que se viu é tendencioso. O passado, o presente
e o (não) futuro da tribo estão sendo distorcidos, a partir de uma série de interesses
em questão.
Tudo isso me fez lembrar o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, comunidade
localizada na região do Cariri e liderada pelo Beato José Lourenço, na década de
1930. Lemos alguma coisa a respeito, de forma breve, na época do vestibular, mas
logo esquecemos. Contudo, aquela aula que tive em 2003 sempre ficou viva na minha
memória.
Espantou-me e ainda espanta o fato de que muitas pessoas simplesmente
desconhecem a história da comunidade. Desconhecem a luta desses sertanejos
simples, que apenas lutaram por uma vida digna, sob a benção de Padre Cícero.
Desconhecem as humilhações sofridas. Desconhecem que o então Ministro de
Guerra, Eurico Gaspar Dutra, autorizou o que veio a ser o primeiro ataque aéreo do
Brasil. Desconhecem que um dos poucos jornalistas a defender abertamente o
Caldeirão, José Alves de Figueiredo, foi perseguido, preso e hostilizado.
Desconhecemos porque pouco se falou. E o que se falou, em sua grande maioria, era
com o intuito de distorcer e amedrontar. “A experiência em Canudos não pode se
repetir”, “fanáticos”, “José Lourenço e seus seguidores querem trazer a maldição do
comunismo para o Nordeste do Brasil”, diziam os principais jornais da época. A
população apoiava o discurso. E foi assim que, com o tempo, soterramos, para
debaixo da terra, árida e próspera, uma das experiências mais
igualitárias que já existiu no Brasil.
Hoje em dia, com a Internet, podemos saber, ver e ouvir todas as versões e opiniões
sobre os Kaiowá/Guarani. A dúvida que fica é: e se existisse Facebook naquela época,
o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto deixaria de existir? Ou: Será que daqui há 50
anos, nossos filhos e netos - e até nos mesmos - irão se lembrar da luta desses
índios?
(bebel medal)


